01 April, 2008

Na cadeira do.... dentista :-) parte 1

Depois de uma longa ausência, sem escrever, consequência de muita preocupação, de muito nervosismo, de muitas noites mal dormidas, de noites não dormidas e passadas a trabalhar, de muita pressão, todos gerados pela vida dupla que levo desde que cheguei aqui (em Agosto vai fazer 2 anos) em que metade de mim vive aqui e a outra metade vive lá, no meu país, como se costuma dizer com uma perna aqui e a outra em Portugal;
hoje, depois de mais um artigo sobre parameterizações do CMT em modelos de nuvens ter sido digerido, pouso o meu bloco de notas na secretária, mudo-me para a minha cadeira IKEA :-), coloco o portátil no meu colo, como a última tirinha da tablete de DAGOBA Lavender: dark chocolate, lavender and blueberries biológico ;-) (é tão BOOOMM, é o meu chocolate preferido!), e os meus dedos invadem as teclas do teclado, completamente guiados pela ideia luminosa que acabei de ter: hoje vou escrever sobre dentistas!
ou melhor :-) sobre as minhas visitas aos dentistas americanos.

Vai ser uma escrita dividida em 3 partes, em 3 artigos, para os tornar curtos e fáceis de ler, pois eu mesma, hoje em dia, tenho alguma dificuldade em ler artigos muito compridos na net, inclusive os meus próprios 'posts' aqui no blog! (shame on me! hehehe)

Esta imagem foi tirada por mim no Pike Place Market, o dente está mesmo lá pendurado e a palavra "Gentle" deixa adivinhar muita coisa.....

Se há médico que conheço desde muito pequenina é mesmo o dentista.
E desde que aqui cheguei já fui a uns tantos, por causa dos meus problemas dentários e vale bem a pena partilhar estas experiências!

Passei por todo o tipo de situações mais incríveis que vcs podem imaginar, e sei que muitos também têm histórias mirabolantes para contar, mas foi aqui que percebi que somos um bocadito mal tratados em muitos dos consultórios em Portugal. Não digo em todos, aliás porque a excepção faz a regra e ainda bem que existem excepções, que sugerem médicos com consciência e sentido de responsabilidade no trabalho que desenvolvem sobre o doente.

Vamos lá começar: (follow me)

a 1ª vez que fui ao dentista aqui em Seattle foi há 1 ano e mais qualquer coisa, em meados de Outubro de 2006.
Um tratamento de canal inacabado, num molar superior, deixou a infecção propagar-se.
E eu, super fã do cházinho bem quentinho, vi estrelinhas no sentido literal quando a infecção deu de si!

Bastante assustada, telefonei para os meus contactos e no dia seguinte, bem cedo, fui visitar a Emergency of the School of Dentistry da UW, exactamente como o nome diz, dei entrada nas Urgências de Estomatologia.

Depois de uma 1ª parte a preencher papelada e uns 3 questionários de um lado e do outro, onde um deles (lembro-me perfeitamente) era para assinalar as doenças que já tínhamos tido, ou estávamos a ter, numa lista tão pormenorizada que me deixou muito surpresa.... mas desta vez não omiti nenhuma informação, o que conduziu a uma situação, ao mesmo tempo, hilariante e 'odd' que vos conto a seguir. :-)

Vieram chamar-me à sala de espera, um médico, apresentou-se e depois do nome disse que era estudante do último ano do curso. Eu pensei logo para mim "Isto hoje promete!".
Entro numa sala cheia de divisões, como se vê nos filmes americanos, imaginem uma sala enorme, com divisórias a formar pequenos compartimentos e dentro de cada compartimento uma cadeira de dentista e todo o aparato de aparelhos necessários às intervenções. Havia muita gente na sala, quase todos os compartimentos tinham uma pessoa deitada na tal cadeira e várias de volta dela.

Indicaram-me a minha. Sentei-me e esperei. Vieram entregar ao médico os meus questionários. Entretanto ele falou comigo, perguntou-me como me sentia e do que é que eu queixava. E eu lá expliquei a situação e dei todas as informações relativas ao dente.
Chega uma nova pessoa, um rapaz novo. Apresenta-se: aluno do 1º ano do curso. Eu fiquei logo curiosa para saber quais eram as tarefas dele. Diz-me que ele é o encarregado pelos procedimentos iniciais: medir a temperatura e a tensão arterial.
A tensão arterial estava alta, pois eu estava bastante nervosa com a situação e a temperatura interna estava baixa, andava pelos 35.5ºC mais grau menos grau :-).
Ele olha para mim muito sério, depois de olhar várias vezes para o termómetro e diz-me qualquer coisa do tipo "tem uma temperatura muito baixa, tem a certeza que se sente bem?" ao que eu respondi "sim, mas sinto dor no dente" e depois ri-me ao pensar que o rapaz poderia estar com medo que me desse o 'badagaio' ali mesmo! :-D

Enquanto esta cena decorre, o médico do último ano de curso lia, atrás de nós, as minhas informações sobre as doenças e depois do "caloiro" ter terminado, vira-se para mim, com um olhar muito curioso em direcção ao meu pescoço e pergunta-me o que é que eu tenho na tiróide. Eu como na altura não sabia dizer nódulos em inglês, expliquei o que eram, mas nem consegui terminar, pois ele parecia que tinha bicho carpinteiro, não parava quieto na cadeira, sempre a olhar para o meu pescoço e interrompeu-me dizendo "pois tem, pois tem! são e nodules! Eu estou a vê-los, eu estou a vê-los!!" e levanta-se repentinamente, vai para trás da cadeira, coloca as mãos dele no meu pescoço e começa a contar: "one, two, three! One here, another here, another this side! Yeah, I can feel them!... here, here and here...".
Conseguem imaginar os meus pensamentos? Eram qualquer coisa do tipo "Oh My Goodness, nunca pensei que os meus nodules pudessem colocar um estudante de estomatologia de 5º ano num estado tão entusiasmado!!" e ri-me.

Depois lá se sentou ao meu lado, sempre a olhar directamente para o meu pescoço e fez as perguntas normais relativas ao assunto.

Uns minutos depois estávamos de volta ao problema que me levou lá. Tiraram-me um raio-X, mas antes colocaram em cima de mim uma espécie de colete bem pesado, desde o ombros até às ancas, para me proteger dos raios e só depois accionaram a máquina.
Estiveram bastante tempo a olhar para o raios-X e chamaram o médico supervisor, que o meu caso levantava dúvidas, haviam 2 dentes na mesma situação e um mesmo junto ao outro: um pré-molar e um molar. A questão era: qual deles é que me estava a causar dor, e ambos "desvitalizados" no passado.

Vem o médico supervisor e faz-me as mesmas perguntas que eles e eu explico novamente a situação. Ele dá novas instruções ao meu médico (entretanto, o caloiro foi medir a temperatura e tirar a tensão arterial a outros doentes que entretanto chegaram), e dá-se início a uma série de testes ao frio e ao quente.
Todos eles tiveram resultados negativos, o que dificultou mais a identificação do dente.

Até que um dada altura ele diz que vai reproduzir a situação que originou a dor e buscar um copo com água quente. Mal a água quente tocou no dente.... acho que conseguem imaginar as estrelinhas a apareceram novamente.
Ele rejubilou de alegria!

Vem novamente o supervisor, conversam alguns minutos entre eles e dão-me a sentença final: "preciso de novo root canal procedure - tratamento de canal- e eles não fazem isso nas urgências, tenho que marcar consulta para um médico especializado, pois no país deles este procedimento é considerado uma operação e é feita por especialistas em Endodontics, um médico estomatologista normal não faz."

E assim foi. Paguei a consulta e o raio-X e encaminharam-me para a secretaria principal do departamento de Endondotics, onde me informaram que tinha que me inscrever como doente, esperar que me aceitassem como tal, esperar uns 9 meses pela 1ª consulta de diagnóstico e depois mais uns tantos pela operação.
Disse que não estava interessada, era mesmo muito tempo de espera.

O que eu não sabia é que este não era um assunto fácil de resolver, e levei mais de 1 ano para o concluir (fiz a operação no mês passado).

Entretanto, muita água correu debaixo da ponte e eu comecei a explorar as minhas possibilidades de tratamento aqui.

Mas isso deixo para as partes 2 e 3. :-)



Chamomile,Honey & Vanilla tea hugs {**

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