13 March, 2009

Uma Milonga e um Coracao que nao cabe dentro do peito!

Este 'e uma post dificil de escrever, porque esta', todo ele, relacionado com o que eu senti e vi naquela noite de tango.
Existem sentimentos muito dificeis de descrever, principalmente quando tocaram o fundo da nossa alma e desejamos ardentemente passar esses pensamentos para as pessoas mais importantes da nossa vida, mas que por palavras sentimos que fica a faltar algo.
Nestas alturas gostava de poder comunicar por telepatia, por imagens, conseguir aceder 'as frequencias das imagens que o meu cerebro gravou (o cerebro trabalha em frequencias), e passa-las aos meus destinatarios.
Como ainda nao consigo fazer isto, o corpo fisico tem as suas limitacoes e os receptores tambem, vou fazer o meu melhor ao tentar escrever sobre isso.

Havia uma milonga naquela 6f e na nossa escola. A estas eu nunca tinha ido.
Eu sou presenca assidua nas praticas e dancas sociais da minha escola.
O ambiente 'e-me muito familiar. :)
Um milonga ou danca social significa uma coisa seria, um ambiente onde o dancar 'e profissional e requer-se que seja bom e de qualidade.
Um ambiente em que os trajes das mulheres e dos homens se equilibram com o profissionalismo da danca. O Tango Argentino no seu melhor.

O palco estava montado de uma maneira que me fez viajar no tempo, mal coloquei o pe' la' dentro.
Aquilo nao era a escola onde eu costumo ter aulas, era outro lugar!

Mesas pequenas e redondas formavam um circulo que delineava o espaco onde se dancava.
Dada mesinha tinha no seu centro uma vela acesa e duas cadeiras. Tudo em tons escuros.
O ambiente 'a media luz.
As luzes fortes estavam desligadas, sobravam os candeeiros pendurados no tecto, candeeiros estes pintados em tons de amarelo/laranja, vermelho e azul real, iluminados por lampadas fracas, produzindo um ambiente calmo e simultaneamente misterioso e muito sedutor.
Esta seducao passava para no's de um modo muito espontaneo: o modo como se dancava era calmo e suave, o modo como os homens vinham buscar as mulheres para dancar, percorrendo a sala ate' ao lugar onde elas estavam sentadas, estendendo-lhes a mao e no's, em resposta, elevavamos a nossa, para ir ao encontro da mao deles, sorrindo e acenando que sim.

No inicio nao consegui fazer parte da danca.
O ambiente era tao sedutor e maravilhoso que me recostei numa das cadeiras colocadas mais atras, bem perto da parede, pintada de um vermelho tijolo, para poder observar e gravar tudo o que sentia e via.
Os homens, nos seus fatos elegantes, de calcas e camisa estavam lindos e muito atraentes.
A maneira como guiavam as mulheres na danca era tao harmoniosa e bonita que mal dava para acreditar que muitos deles comecaram a dancar quando eu ou ha' pouco mais tempo que eu. A concentracao reinava nas suas caras e as mulheres correspondiam a cada passo magicamente, numa perfeicao inebriante.

Estive neste estado de extase, sem querer fazer parte activa do cenario, uma serie de musicas, so' aproveitando e recebendo no coracao a magia daquilo que estava a presenciar e que era lindo e que no mais intimo de mim agradecia 'a VIDA por me estar a dar a oportunidade de viver algo tao genuinamente belo, feliz, resultado de um trabalho e esforco comum de um homem e de uma mulher e de muito respeito por ambos os papeis.

O J. foi o primeiro e chamar-me 'a terra, perguntando-me suavemente quando 'e que eu ia tirar as botas e colocar os sapatos de salto. :)

Depois chegou o resto da malta, e eu ainda meio atordoada so' sabia dizer: "Estamos tao bonitos! Estamos tao bonitos!" com aquele sorriso sonhador estampado na cara.

Entao decidi fazer parte do cenario e nunca mais parei.
Ja' a noite ia longa qd saimos.
Os meus pe's nao doiam, curiosamente. So' me lembrei que os tinha quando tocava as milongas e eu tenho alguns problemas em dancar este ritmo, embora adore as musicas.

Numa das musicas, dancava com o B., aconteceu algo extraordinario.
Este rapaz 'e especial, danca de uma maneira muito especial. E este modo muito dele 'e muito bem aceite pelo meu corpo, dado que desligo a mente quando danco (pois ela arruina tudo) 'e suave, calmo, nao apressa os movimentos, espera por mim e sabe sempre que passo estou a fazer e onde estao os meus pe's.
'E assim com todas as mulheres com quem ele danca.

Numa das musicas entrei em transe. Se foi mesmo isto, nao sei explicar bem o que aconteceu.
So' sei que pouco tempo depois de a musica ter comecado, eu nao tenho qualquer lembranca do que se passou. O meu corpo estava la', mas eu nao. A minha alma voou, o espirito saiu do corpo, qualquer coisa deste genero, porque eu nao me lembro de absolutamente nada.
Nunca parei de dancar. Sei que a musica terminou e eu nao dei conta e continuava parada, abracada ao B. Foi ele, que ao ouvido, me disse baixinho: "A musica terminou".
E eu senti-me voltar a mim, sentir voltar a sentir cada parte do meu corpo, lentamente como um arrepio que nos percorre de alto a baixo. E abri os olhos como se tivesse estado num estado de sono profundo.
Afastei-me lentamente e ele olhou para mim a sorrir e disse qualquer coisa sobre a danca ter sido muito bonita e perfeita. Eu retribui o elogio dizendo que me senti no ceu. :)

Quando fomos todos embora, o encontro ainda nao tinha acabado, mas musica que tocava era uma valsa linda de Osvaldo Pugliese, este mestre do tango, que se chama Desde El Alma e que nao sai da minha cabeca desde esse dia.
Deixo-vos um video to Youtube para a ouvirem, ja' esta' na lista de musicas do meu cantinho.



Um dia hei-de dancar assim :) vestido incluido e tudo, mas preto ou beringela que condiz maravilhosamente com o meu tom de pele ;)

Um beijo }**

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