01 November, 2010

Almoços Peculiares


Uma das situações das nossas vidas que mais nos força a sair da nossa própria zona de conforto (onde estamos eternamente bem instalados, da qual não queremos sair e fazemos birra quando isso acontece, dando, geralmente, lugar a que o mau-humor fique entusiasmado) é de repente irmos a um convívio de um familiar muito próximo e importante nas nossas vidas, onde ... não conhecemos uma única pessoa. Ninguém!
E estão lá umas 100 pessoas, onde 50% delas conhece o nosso familiar, que nos pediu para comparecer ao evento, para partilharmos da alegria dele.
E, estas situações, são aquelas que mais forçam os nossos próprios limites: temos que sair do cadeirão e conviver! mas não é só conviver, é arranjar uma linguagem educada e gentil que possa ser interpretada pelo maior número de pessoas possível, para não chegarmos ao fim do dia sem termos trocado uma única palavra com ninguém, completamente imersos na nossa bolha de cristal. Não, não queremos que isso aconteça. Todos alimentamos a esperança conhecer pessoas novas, fazer amizades, afinal somos um animal social, sentimos bastante conforto quando alguém está realmente interessado em nós, ou pelo menos, interessado em ouvir-nos. E é muito bom quando isso acontece.



Ora, eu vivi uma situação destas há 2 semanas atrás (fora os passeios do FIUTS em Seattle, que eram todos nestes moldes). Mas com uma pequena modificação: as pessoas com quem tinha que conviver eram todas bem mais velhas como eu. Não estamos a falar de adolescentes com problemas de socialização, nem de pessoal de 2º idade ( > 30 anos) que mais parecem adolescentes de tanto que olham para o chão sem conseguir aguentar uma conversa decente de tão imersos que estão na sua própria importância. Não, estamos a falar de pessoal da 3ª idade, todo já bem vivido e a catalogar-nos à distância.
Estes são para mim, as melhores reuniões com desconhecidos, porque pessoas maduras transmitem-me a mim uma segurança, uma maneira de estar na vida (seja lá o tipo de vida que viveram e os osbtáculos que tiveram que ultrapassar), uma maturidade e um conhecimento que não existe em mais nenhuma altura da vida. Nutro um profundo respeito por eles, e estar com eles é quase sempre sinónimo de relações verdadeiras, baseadas em sentimentos verdadeiros. E isto, meus amigos, não tem preço, e é raro nos dias de hoje.

(Explicação Astrológica: Saturno na Casa I, em Leão, o meu signo solar)

Quando demos entrada na sala onde o almoço iria ser servido, e vi aquelas longas mesas cheias de cadeiras, com as pessoas desesperadamente à procura dos conhecidos e a sentarem-se junto deles, a eterna questão onde vou eu ficar e com quem, invadiu a minha mente. Segui o meu familiar, que ficou ao pé de um grande camarada e companheiro de viagens por mares nunca dantes navegados, e as famílias foram se sentando. Eu acabei por ficar longe da minha referência, e tive como companheiros de refeição as três pessoas mais amorosas deste mundo: ao meu lado esquerdo uma srª de 60 e poucos anos, em frente a ela uma outra srª de 70 e poucos anos e à minha frente uma individualidade sui generis de mais de 80 anos. Destas pessoas, nenhuma delas aparentava a idade que tem. Aliás brincámos com as idades uns dos outros, e eu falhei por muitos a idades que eles realmente tinham - todos eles tinham uma vida, um entusiasmo interior fora de série. Mesmo sem os conhecer de lado nenhum, senti-me em casa, aquele ambiente era-me muito familiar, e foram as melhores horas daquele dia. Tudo o resto se evaporou enquanto nós conversávamos e convivíamos. E esta sensação é muito, muito boa.

E, como ter conversa que entretenha pessoas desta natureza? ;) aqui ficam umas dicas que nunca falham, desde que vocês sejam bons ouvintes e façam as perguntas certas, sendo verdadeiros no vosso entusiasmo interior.
As doenças/saúde são sempre tema de conversa. Comecem pela versão mais suave do assunto e têm assunto para horas, pois não só se fala a título individual, como também de todos os familiares até ao 6º grau de parentesco, amigos e vizinhos. Se as pessoas com quem estão estiverem de boa saúde, é porque têm cuidados. É bom saber quais são. Perguntar qual a ligação entre eles também dá panos para mangas, principalmente se houver ligações afectivas. Perguntar como se conheceram pode proporcionar-vos umas boas gargalhadas. E eles vão querer saber da vossa também! Eu, como sou uma pessoa muito reservada na minha vida afectiva (efeito de ter nascido com a Lua em Escorpião hehehehe), não digo o que se passa a ninguém, muito menos a pessoas que não conheço de lado nenhum. Esta é a regra que sigo a maior parte do tempo. Não sinto nenhuma necessidade de dizer seja o que for, por isso a minha conduta perante quase todos é, esteja como estiver a minha vida afectiva, esteja ou não envolvida romanticamente com alguém, eu sou solteira. Ora, para essas pessoas, uma rapariga magra, com uns "olhos verdes tão bonitos", a não denunciar os 30 e tal anos que tem, estar solteira é motivo para grande admiração e reflexão! E aí vocês pedem intervenção Divina e saem-se com esta afirmação fabulosa "não existem mais homens sérios à face do planeta!". hehehehehe, e têm conversa para uns bons valentes minutos, com divagação lenta e morosa sobre todos os casos de relações mal sucedidas que eles conhecem. Por sinal, algumas muito tristes mesmos. Lá está, não há seriedade nos sentimentos. E por fim, para continuar em grande animação, digam que são vegetarianos, e que não vão comer nenhum dos pratos que vem no menu. A conversa vai direccionar-se invariavelmente para as doenças/saúde, e neste campo é onde eu me sinto mais à vontade porque lhes posso ensinar algo. E, como a organização não quer que ninguém passe fome ou só fique com sopa e saladas (no meu caso, a organização foi avisada com antecedência), o chefe vai tirar da cartola um FANTÁSTICO crepe de legumes e fazer-vos chorar por mais!
E ainda me disseram que na Marinha não há lugar para vegetarianos! Com crepes destes.... nem quero imaginar se houvesse! hehehehehehe

Existem na minha vida muitas situações destas... com desconhecidos, que são um bálsamo para a minha alma. A empatia que se cria quase instantaneamente é profunda e imensa (a despedida foi uma emoção!).
Estranho não é?



Um beijo e boa semana :}**

No comments: