04 December, 2011

Recordando os meus amigos Indianos :-)

[ o antepenúltimo post!  - slideshow no final]


Este artigo está em rascunho desde o dia 1 de Novembro de 2010!! há mais de 1 ano.... caramba, como sou lenta! LOL
Pensando melhor, faz todo o sentido que ele faça parte dos últimos artigos que escrevo para o blogue, já vão perceber porquê.

Antes de contar mais esta história, quero colocar uma introdução intrinsicamente ligada com as pessoas que fazem parte dela. Fui folhear o livro Evangelho Segundo o Espiritismo, de A. Kardec, para ver se me inspirava. Este livro é um consolo para a alma e para o coração, e lá encontrei isto:

"Se os homens se amassem reciprocamente, a caridade seria melhor praticada.
Mas, para isso, seria necessário que vos esforçásseis no sentido de livrar o vosso coração dessa couraça que o envolve, a fim de torná-lo mais sensível ao sofrimento do próximo.
O Cristo nunca se esquivava: aqueles que o procuravam, fossem quem fossem, não eram repelidos. (...) eram socorridos por ele, que jamais temeu prejudicar a sua própria reputação. Quando, pois, o tomareis como modelo de todas as vossas acções?
Se a caridade reinasse na Terra, o mal não dominaria, mas se apagaria envergonhado; ele se esconderia, porque em toda a parte de sentiria deslocado.
Então o mal desapareceria; compenetrai-vos disso.

Começai por dar o exemplo vós mesmos. Sede caridosos para com todos, indistintamente. Esforçai-vos para não atentar nos que vos olham com desdém. Deixai a Deus cuidar de toda a justiça, pois cada dia, no seu Reino, Ele separa o joio do trigo.

O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem caridade, não há tranquilidade na vida social, e digo mais, não há segurança. Com o egoísmo e o orgulho, que andam de mãos dadas, essa vida será sempre uma corrida favorável ao mais esperto, uma luta de interesses, em que as mais santas afeições são calcadas aos pés, em que nem mesmo os sagrados laços de família são respeitados."

(por Pascal, Sens 1862, no E.S.E, Capt. XI - Amar ao próximo como a si mesmo, pags. 205 e 206)


Foi numa tarde nublada, onde a correria dos estudantes invadia os percursos que ligavam os vários edifícios da UW onde as aulas ocorriam. Eu, fazendo parte do sistema, também caminhava apressadamente, com o meu latté de soja e baunilha na mão, tentando aconchegar o cache-col  e a lembrar-me das luvas que deixei no gabinete, quando um rapaz intercepta o meu caminho e me estende um panfleto. Paro. Olho para ele. Olho para o panfleto e leio "Aulas de Cozinha Indiana vegetariana. Grátis." Era o último panfleto dele. Pergunto-lhe se é verdade e quem eram as pessoas. Soava-me estranho ler aulas de cozinha grátis. Estou na América, há aqui algo grátis?!
Ele lá explicou. Terminou com um "vais gostar de ir!" e desapareceu.
Voltei ao gabinete, e não senti vontade de deitar o panfleto para a reciclagem, como costumo fazer. Em vez disso, coloquei-o mesmo ao lado do monitor, num local visível, depois de o ler várias vezes, e fui ao Google maps procurar o local das aulas. Era na Ave, lá mais para norte, mais de 6 blocks. Uma vez por semana, às 18H, com direito a jantar. Pensei que era um pouco longe, isto porque às 18H ainda estou em plena produtividade e iria atrapalhar-me.
Passou o dia em que deveria ir. Aquela vozinha interior sempre a dizer: "tens que ir, Susana! Tens que ir!", "mas é longe", respondia-lhe eu, "e parar o trabalho agora não me dá jeito nenhum!", e acabava por não ir. 
Entretanto resolvi contactá-los via email, para saber mais informações. Estava decidida a ir, mas chegava o dia, e apesar da vozinha interior sempre insistente, acabava por não ir. Até que recebo um email deles a dizer que as aulas seriam dentro do Campus da UW, tinham conseguido arranjar sala.
"Agora já não há desculpa, as aulas são mesmo aqui ao lado!"

Eles eram um grupo de indianos, todos na casa dos 30 anos, casados, com filhos pequenos e empregados na Microsoft. Tinham a sua filosofia religiosa, que os liga ao Superior/Divino e como toda a filosofia, doutrina, credo, o que seja, que seja verdadeira na difusão do Amor Puro, tem uma forte componente de Caridade, na verdadeira acepção da palavra.
Eles vinham, sabiam que muitos estudantes passavam por dificuldades, e queriam chegar até eles, levar-lhes uma mensagem de esperança, de carinho, de apoio, através da comida. 
Eram pessoas verdadeiramente genuínas, amorosas, sem pretensão, humildes em saber que eles próprios, através daquelas acções estavam a procurar melhorar-se a si mesmos também.
Acho que foi por isso que me identifiquei com eles assim que os conheci, e sabia que iria aprender muito naquelas aulas. Embora a maior parte dos alunos fossem bem mais novos que eu, e isso foi um teste para mim, pois não tenho muita paciência (há excepções) para o pessoal em plena adolescência, todas as aulas, para mim, foram como se fosse a primeira. O mesmo entusiasmo, a mesma alegria, o mesmo apoio da minha parte, estava lá, esteve sempre lá.

Aprendemos a fazer pratos verdadeiramente Indianos e vegetarianos, pois eles eram vegetarianos desde o berço, ficámos a saber mais sobre a cultura deles, a filosofia religiosa, o carinho e a importância da família e como eles tratavam o nosso corpo. Mezinhas Indianas para curar pequenas dores. Aprendemos a ORAR em agradecimento pela comida que iríamos receber. :-)
Todas as aulas foram ensinamentos vivos, e o facto de eu ter sido sempre assídua é que não era o corpo que eu ali alimentava, era a alma! e tudo se torna muito mais profundo, mais vivo, mais verdadeiro e mais duradouro!
É um sentimento absolutamente espectacular!

Nós participávamos, eram "hands-on classes", todos fazíamos de tudo um pouco, e no final, o que cozinhávamos era adicionado à comida que eles traziam do Templo, e jantávamos todos juntos. E comíamos bem, porque a comida era bastante, um prato para mim era de tal ordem que quase precisava de fazer uma sesta depois!

Tive o privilégio de conhecer a casa de um deles, numa reunião de trabalho sobre um filme de divulgação à comunidade, bem longe do centro de Seattle e da UW, mas perto do local de trabalho deles, onde deixámos os sapatos à entrada da porta da casa, na rua, e onde se sentia a imensa harmonia dentro do lar. Quase desprovidos de mobiliário, tinham o mínimo, a divisão da entrada da casa era muito ampla e tinha unicamente 2 objectos: um altar, lindo lindo, de oração, meditação e de oferenda, e um quadro pendurado. Nada mais.
Comparado com o materialismo ocidental, era a água do vinho. 
O engraçado é que eu nunca senti falta de nada naquela casa, o ambiente era aconchegante. Foi um bom exemplo de como é possível viver com o mínimo tendo o máximo de conforto. :-)

Foi das despedidas que mais me custaram, quando deixei Seattle. 
Ofeceram-me um livro, que já estou a ler pela 2ª vez de tão bom que é: "A Journey Home - Autobiography of Radhanath Swami", que é a história, contada na 1ª pessoa, de um rapaz que cresceu na América e que de um momento para o outro resolve partir à procura de si mesmo, numa viagem, aparentemente, sem destino definido. Este aparecerá mais tarde. A transformação de um rapaz num Guia Espiritual. 
Fala sobre sentimentos, bem descritos e vivenciados em todas as etapas desta viagem, tanto positivas como as menos boas. E de como a meditação é TÃO importante nas nossas vidas, é um dos meios que nos liga à nossa verdadeira Natureza - a Espiritual. É fundamental para nós!
Um livro que recomendo vivamente!
Junto com o livro, vinha um cartão de agradecimento.... que ainda hoje guardo com muito carinho, porque o que lá estava escrito tocou cá dentro, bem fundo. Foram palavras de cura e estarei eternamente grata pelos nossos caminhos se terem cruzado. 

Nada, nesta vida, acontece por acaso! Às vezes sinto-me como uma peça num tabuleiro que vai sendo movimentada, sem dar conta, subtilmente, e quando sinto isso, os melhores eventos acontecem!

Deixo o slideshow, para vocês verem e eu recordar (vezes sem conta! como de costume ;-) ):




E sim! A comida Indiana é DE-LI-CIO-SA!!! com aquelas especiarias todas que ajudam a digestão. 

Um beijo e boa semana :-}**

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