02 July, 2011

Ausências


Se olharem para o Cantinho das Histórias, na coluna do lado direito, vão facilmente verificar que não tenho escrito quase nada aqui no blogue. 
Tenho estado muito ausente, o que não é um comportamento normal, visto que tenho sempre algo para escrever, para contar, para partilhar, para divulgar.
Escrever sobre o motivo que me mantém ausente não é fácil, porque é delicado e porque teve/tem repercussões na minha vida até hoje.
É impressionante como de repente TUDO muda, a vida ou como eu costumo dizer O Pai, nos dá uma prova que abana (e às vezes destrói) todos os alicerces sobre os quais construímos as nossas vidas. Mas, não é por acaso, nada acontece ou existe por acaso, e se estas situações acontecem nas nossas vidas é porque precisamos delas, e elas, muitas vezes sem nós sabermos ou nos darmos conta, nos ajudam a subir mais um degrau na nossa evolução espiritual e estarmos mais próximos d'Ele.

Em 2009, ainda em Seattle nessa altura, uma conversa telefónica com a minha família trouxe-me um dos maiores choques emocionais de toda a minha vida, 32 anos de vida - até fez com que os meus desencontros/desilusões afectivas parecessem um grão de areia: a esposa de um casal amigo, da mesma idade que eu, com 2 filhas pequenas (na altura 4 anos e menos de 1 ano de idade, respectivamente), tinha feito uma dupla mastectomia em virtude de um cancro de mama maligno, e estava a fazer tratamentos agressivos de quimioterapia, porque naquela altura os médicos suspeitavam de metásteses nos pulmões.


Eu simplesmente não conseguia acreditar que aquilo estava a acontecer.
Chorei horas consecutivas, choro compulsivo, do mais profundo do meu ser, custou-me muito aquela noticia. Consegui colocar-me na pele deles e sentir a dor deles. Pedi, pedi (como se isso fosse possível) para ser eu e não ela, roguei ao Pai do Céu que os auxiliasse. Este sentimento de choque permaneceu durante dias até conseguir assimilar a emoção e o sentimento do que eu provavelmente já saberia: ela estava prestes a desencarnar.
O processo continou a desenrolar-se, as metásteses no pulmão foram curadas bem como o cancro no peito. Avizinhava-se um período de calma e de recuperação e todos nós estávamos muito optimistas. Ela foi sempre seguida por uma homeopata para adequar a alimentação a todo este processo, pois a alimentação tem um papel fundamental no refortalecimento do sistema imunitário.
Nos 1os meses de 2010, novos exames detectaram aquilo que nenhum de nós queria ouvir: o cancro da mama tinha voltado em força (onde já não havia mamas) e uma convulsão colocou a descoberto metásteses no cérebro. Os resultados das análises chegaram de longe: não há cura para este tipo de malignidade. 
Aquela família (e todos nós) estavámos à beira de nos separar de alguém que amamos muito, que estimamos muito. 
A L. acabou por falecer uma semana depois de ter completado 34 anos, no início de Abril de 2010. Manteve sempre a boa disposição, sempre rosadinha nas faces e o momento da passagem, da separação do seu Espírito do corpo em que se encontrava mergulhada foi bem percebida, ela despediu-se do marido que naquele momento estava com ela, só eles os dois. 
Ela esteve sempre auxiliava por uma equipa Espiritual, garantiu-me quem entende destas coisas. 
E assim foi, a L. partiu para o seu retiro espiritual, onde todos nós nos vamos encontrar um dia, e deixa uma saudade imensa, relembrada todos os dias pelos familiares mais directos dela: marido, filhas, mãe, pai e amigos mais íntimos.
O único consolo que temos é saber que o Pai do Céu sabe o que faz, e a nossa Fé diz-nos que tudo o que acontece nas nossas vidas tem uma razão de ser e que, quando estas situações acontecem lembram-nos mais uma vez da extraordinaria importância de Amar verdadeiramente, da importância dos sentimentos puros e de como eles nos tornam verdadeiramente felizes, pois são os alimentos da Alma. E que os nossos familiares desencarnados, mais tarde ou mais cedo terão a permissão para nos visitar, embora muitos de nós não consigamos vê-los, eles estarão sempre a receber os nossos pensamentos e perto de nós, auxiliando-nos e amparando-nos na nossa jornada terrestre, que não é nada fácil e ajudando-nos a não nos endividar mais e a saldar as dívidas que que já contraímos e com as quais ainda lutamos.

O ano 2010 continua a decorrer e eu sou forçada a um longo período de reclusão para escrever e terminar a minha tese de doutoramento. 
Eu não sou capaz de descrever o quão tumultuoso foram aqueles longos meses de 2010 até finais de Outubro desse ano. É uma luta interna connosco mesmos o tempo todo, é uma pressão imensurável, é como se estivéssemos a cair para logo a seguir nos levantarmos para continuar a tarefa, é o desânimo e a frustação de relembrar todas as dificuldades vividas e bem sentidas durante todo o processo, as pessoas envolvidas que foram tudo menos boas pessoas, é quase perder a Fé em nós próprios.... é bater no fundo do poço. No entanto, e sem esperarmos, quando nos levantamos de manhã trazemos connosco a luz da esperança que nos ajuda a erguer e novamente a pegar o touro pelso cornos. E assim foi.
É indescritível o que senti quando gritei "FIM"!!!! :)
"E agora vou descansar, para me preparar mentalmente para receber as correcções, que essas também irão, com certeza, puxar por mim!" E bem dito, bem feito. ;)

Mas enganei-me na parte do descansar. O Universo estava bem sincronizado, e no início de Novembro de 2010, uma semana e meia, mais precisamente, depois de ter terminado a escrita da tese, recebo outra notícia que me abalou profundamente.
Mãe: "Filha, venho do médico e já sei o resultado das análises."
Eu:"E então?"
Mãe: "Não são boas!"
Eu: "O que isso quer dizer?"
Mãe:"Tenho cancro da mama."
Eu:"... ... ... ... ... ... ", penso "Caramba!!", e fazendo-me forte, mas acreditando profundamente naquilo que ia dizer, disse "Vai tudo correr bem!".
Não vos consigo descrever os sentimentos em nós nos encontráramos mergulhados quando esta noticia chegou.
A minha mãe não é uma piegas nem é mulher de se deixar ir abaixo e assim procedeu, nunca deixando vir ao de cima as suas reais emoções e sentimentos, até ao dia em que fez a mastectomia.
Nunca senti que fosse a despedida ou que tivesse chegado a hora de ela fazer "o tal" retiro espiritual, senti que esta situação era mais uma prova que o Pai de Céu nos tinha enviado para nos fortalecermos enquanto família, e se nós estávamos a passar por ela, é porque necessitávamos dela.
Apercebi-me também, interiormente, que o Cancro parece uma epidemia (perdoem-me se abuso do termo), mas já vitimou milhares de mulheres em todo o mundo e causou muita tristeza em milhares de famílias. De repente, o vosso mundo contai-se de uma maneira tão forte, que todos os lados, todas as direcções vos mostram doentes de cancro. E é uma realidade dolorosa, nos mostrando o quanto a vida é frágil, o quanto "hoje  podemos estar, mas amanhã já não", o quanto usamos e abusamos do corpo que temos.
Ao mesmo tempo que esta situação decorria, ficamos a saber que um vizinho do prédio dos meus pais, que muito estimamos, tem a esposa (e uma história de vida com provas duríssima, incluindo a perda do único filho num acidente de carro com 20 e poucos anos) com cancro em fase terminal . Ela desencarnou no dia 28 de Dezembro de 2010, e ele ficou de rastos. Mas o Pai do Céu sabe o que faz: ele ganhou uam nova família :), agora é só subir do 2º ao 4º andar e vê-lo a sorrir e a contar as suas histórias. O tempo suaviza muito da nossa dor, e um dia ela será curada e perdoada. Leve o tempo que for preciso.

A mastectomia da minha mãe aconteceu no dia 6 de Dezembro, correu tudo bem e recebemos a notícia que o cancro foi detectado a tempo e que não haviam metásteses. A melhor notícia de todas as nossas vidas! Foi também a 1ª vez que vi o meu pai verdadeiramente emocionado quando viu a minha mãe na cama do hospital, nem assim ficou quando a minah avó, mão dele, desencarnou. Foi muito difícil.
Na altura, e porque "santos da casa não fazem milagres", ofereci-lhe um livro para ela ler e que recomendo a TODOS os doentes de cancro. Aqui fica a referência:


Ele, médico investigador na área da neurologia e confrontado com  diagnóstico de Cancro no cérebro, recusa-se a aceitar o veredicto dos seus colegas: não tem cura. E inicia um longo caminho de investigação à procura de respostas de como o que nós comemos afecta enormemente a nossa saúde e porquê. O livro que vai revolucionar a vosso modo de estar, mas acima de tudo este livro é uma fonte de conhecimento!
Para vos dizer: o livro é o missal da minha mãe, que já o ofereceu a meia dúzia de pessoas que sofrem com a mesma doença e teve um impacto imenso na recuperação dela.

A recuperação e pós-operatório foram fases muito complicadas das nossas vidas. A luta maior foi mesmo com a doente que se viu a uma imobilização forçada quando antigamente comandava o barco. Não fazer nada e a ver-nos fazer tudo foi um desespero muito grande para ela. Foram meses de trabalho muito árduo para mim e para o meu pai, felizmente o meu orientador foi compreensivo o suficiente e pude meter "baixa" por uns meses do projecto em que tinha começado a trabalhar, mas sabem faria tudo de novo, pois os meus pais fizeram grandes sacríficios para nos criar, em nome do Amor que sentem por nós, deram tudo o que estava ao alcance deles e a minha única forma de retribuí-los é Amá-los como eles são, é estar ao lado deles quando eles precisam, auxiliá-los e ampará-los nos momentos menos positivos e rir com eles nos melhores momentos.

"Deus não nos dá provas que não possamos suportar, nós temos todos os recursos internos para as superar, precisamos descobri-los!"

Seguiu-se uma fase de reconstrução mamária, que dura até hoje e uma espécie de quimioterapia preventiva, em forma de comprimido, por 5 anos, que actua a nível hormonal, de modo a garantir que o cancro não volta. A mastectomia, além da cicartiza que deixa, deixa também o braço ligado à mama que foi retirada em muito mau estado e a este mau estado estão associadas muitas dores. A minha mãe não foi excepção. Começou a fisioterapia há 1 semana e também tem sido  e será um processo lento.

Umas breves palavras sobre a alimentação. 
Desde que soube que estava doente e depois de ter lido o livro, houve uma mudança grande nos hábitos alimentares em casa dos meus pais. Abandonaram-se todos os produtos refinados, o xarope de agave é utilizado para adoçar tudo, sal marinho, cereais integrais, legumes e frutas biológicas, sumos verdes com sementes germinadas para fortalecer o sistema imunitário. Todos os dias eu fazia um sumo vivo (verde ou laranja, com cenoura, maçã, gengibre e salsa) para todos nós bebermos. Esta mudança na alimentação ajudaou muito na cicatrização dos tecidos que foram sujeitos à operação e à própria recuperação dela: ela nunca apresentou um ar doente ou cansado. E isto aconteceu, tenho a certeza, ninguém me tira isto da cabeça :), por causa da alimentação!
Agora, que já se senti bem melhor, vai cometendo alguns excessos, mas o corpo na sua infinita sabedoria, lá lhe vai dando uns avisos para ter cuidado. 

A pouco e pouco vou retomando a minha vida (com a tese definitivamente entregue e aguardando a marcação da defesa, que nervos!!) pessoal e profissional, como quem acorda de um longo sono profundo e se vai apercebendo aos poucos das pontas soltas que precisam ser resolvidas e trabalhadas o quanto antes.

E, só me ocorre dizer (para terminar) isto:

Meus AMIGOS Brindemos, Brindemos À VIDA e À SAÚDE, a maior Dádiva e Benção que o Pai do Céu nos dá, todos os dias!




Fiquem bem!
Um beijo :}**

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